Cientistas do CNC-UC revelam fatores que influenciam virulência de bactéria multirresistente

12/02/2026

Uma equipa de cientistas do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra (CNC-UC), integrado no Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia (CiBB), identificou um novo conjunto de fatores que ajudam a explicar a virulência elevada da bactéria multirresistente Staphylococcus aureus, responsável por mais de um milhão de mortes por ano e uma das principais causas de doença hospitalar e comunitária.

 

O estudo agora publicado fornece novas pistas sobre como a bactéria se esconde, sobrevive e se multiplica dentro dos fagócitos não profissionais, células humanas cuja primeira função não é a defesa imunitária e nas quais alguns antibióticos demonstram menor eficácia.

 

«Compreender os mecanismos de infeção e adaptação intracelular da bactéria Staphylococcus aureus permitiu-nos desvendar como este microorganismo consegue escapar ao sistema imunitário e resistir aos antibióticos, expandindo assim o conhecimento recente sobre a sua biologia e virulência», afirma a investigadora do CNC-UC e líder do estudo, Ana Eulálio.

 

Entre os fatores descobertos no estudo, identificaram-se 73 genes que influenciam fortemente a capacidade de a Staphylococcus aureus invadir, persistir e se multiplicar no interior de células humanas, e até de causar a morte destas células. O estudo contemplou um total de 1920 mutantes da bactéria (que apresentavam mutações genéticas bacterianas em todos os genes não essenciais).

 

Destaca-se também a descoberta de uma nova função da enzima nicotinamidase (PncA), que regula o sistema de virulência da Staphylococcus aureus — o sistema agr (Accessory Gene Regulator), que determina a expressão de muitos fatores de virulência. Este trabalho demonstrou que a PncA controla a atividade do sistema agr através da regulação do metabolismo da bactéria.

 

A análise sistemática deste estudo — a mais abrangente já realizada sobre a vida intracelular da Staphylococcus aureus — abre caminho ao desenvolvimento de terapias inovadoras, capazes de eliminar estas populações «ocultas» de bactérias, contribuindo para combater infeções crónicas e recorrentes e reduzir a resistência antimicrobiana.

 

A caracterização do papel da proteína PncA na virulência também abre novas perspetivas para a investigação do papel do metabolismo bacteriano na infeção. Estas descobertas oferecem múltiplos pontos de partida para explorar novos alvos terapêuticos e compreender melhor as interações entre bactéria e hospedeiro.

 

«Nos últimos anos, tem-se acumulado evidência de que a bactéria Staphylococcus aureus não é apenas um patógeno extracelular [que vive fora das células do hospedeiro], mas que, pelo contrário, consegue estabelecer-se dentro de células humanas, contribuindo para infeções persistentes», explica a investigadora Ana Eulálio.

 

Conduzido com recurso a ensaios de infeção por microscopia de fluorescência automatizada de larga escala, o estudo identifica um conjunto de fatores nunca antes associados à vida intracelular e virulência da bactéria.

 

O Staphylococcus aureus é um patógeno que constitui uma das principais causas de doença hospitalar e comunitária. As infeções causadas por estirpes de Staphylococcus aureus resistentes à meticilina (ou MRSA) constituem a segunda causa mais comum de morte associada à resistência bacteriana a antibióticos.

 

A investigação do grupo da investigadora Ana Eulálio sobre a sobrevivência intracelular e a resistência aos antibióticos da bactéria Staphylococcus aureus é financiada pelo concurso de Investigação em Saúde de 2025 da Fundação ”la Caixa” com cerca de meio milhão de euros.

 

O estudo Systematic identification of bacterial factors driving Staphylococcus aureus intracellular lifestyle in non-professional phagocytes (Identificação sistemática dos fatores bacterianos que determinam o estilo de vida intracelular da Staphylococcus aureus em fagócitos não profissionais), publicado na revista Nature Communications em dezembro de 2025, foi realizado através de uma colaboração entre o CNC-UC e investigadores do Centro de Biotecnologia, Conselho Nacional de Investigação de Espanha (CNB-CSIC) e do Imperial College de Londres e está disponível aqui.

 

 

Inês Amado da Silva com Catarina Ribeiro (UC)

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